quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

ITORORÓ (¹)


No longo quintal da casa,

Transcorreu-se minha infância:

Entre as poucas árvores, via uma floresta,

Palco de batalhas, sem nenhuma ganância.


De dia, viver de brincar,

De noite, visagens olhando pela fresta.

No cantar do sapo, um grito de horror;

Latido dos cães, calafrio e suor na testa.


Quando imaginar que ia sentir saudade

Daquela imensa tranqüilidade

Dos mal-olhados e guizos

Dos filmes que o "Seu Manuel" (²) nos trazia do “Paraíso” (³)?


Latas de azeite virando carrinhos,

Num grande engarrafamento, subindo e descendo a rua,

Cadeiras em círculos em torno do rádio

E todas aquelas meninas namorando a lua.


Alberdan Batista

(¹) Nome da rua em que nasci. Nesta época o Bairro da Pedreira era subúrbio de Belém, hoje é quase centro. A Itororó, hoje, se chama Enéas Pinheiro. Tudo mudou!

(²) “Seu Manoel” era um vizinho, cobrador de ônibus. Uma memória extraordinária para ver e contar filmes. Sempre nos reuníamos para “sessão” de cinema. “Vi” muitos filmes desse jeito.

(³) Cine “Paraíso” era um dos cinemas do Bairro da Pedreira (o outro era o Cine Vitória). Um virou igreja evangélica e outro, depósito.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

O REGGAE EM BELÉM


Em Belém, a maneira como as pessoas se relacionam com o reggae depende da quantidade e da qualidade das informações que chegam até elas.

Depende também do nível de interesse em buscar estas informações.

Depende ainda do que elas acreditam e buscam na vida.

Estas e outras razões é que faz com as pessoas que moram nesta cidade tenham uma opinião tão diversificada sobre o assunto.

...

Para muitos o reggae é só uma música, como muitas outras músicas, ou ainda “só mais uma música”.

Para outros é uma música que se dança, como as outras danças, que tem ritmo e sensualidade.

Há ainda os que somam a música e dança, um estilo de se vestir, como uma afirmação pelo gosto despojado.

Para mim reggae pode ser tudo isso, mas é muito mais.

Para mim os elementos que compõem a cultura reggae, podem ser manifestos numa atitude diante da vida, que expressem um comportamento social e que orientam a caminhada do dia-a-dia.

Penso que para se chegar a isso é preciso perceber o reggae como uma filosofia de vida, que busca conhecer o passado, compreender o presente e agir para influenciar o futuro.

Isso pode se tornar uma atividade prazerosa, se buscado coletivamente.

Penso que os movimentos culturais podem aproximar aqueles que estão nessa busca.

Alberdan Batista

quarta-feira, 11 de julho de 2007

O PERIQUITO E A LUA.


Texto copiado do encarte do LP “Sinal de Amor” da cantora e compositora Diana Pequeno

Era uma vez um periquito lindo, encantado. E tinha no canto um som celestial e, nas penas, uma cor indefinível, quase transparente. Uma cor de sonho.
De janelinha em janelinha ia o periquito cantando. E as pessoas, fascinadas pelo seu canto, ficavam a sonhar com a Lua.
Mas o periquito tinha na Lua sua eterna companheira, uma misteriosa amiga, da qual ele queria receber sua luz, aprender mais coisas.
Um dia, com as árvores ainda orvalhadas, o periquito encontrou a nuvem Cintila e pediu ajuda:
- Eu quero ir para a lua, disse ele.
Cintila ficou assustada e pediu que ele continuasse na Terra.
Só que o periquito não desistiu. E saiu voando pelo céu, pousando de nuvem em nuvem, perguntado como poderia ir à Lua. Pousou na Anaconda, na Florisbela (duas nuvens amigas) e elas pediram que desistisse da idéia.
- Seu lugar é na Terra, periquito, elas disseram.
Mesmo assim pediram que ele procurasse a Dona Ursa Menor, uma estrela sábia do universo, sempre muito sonolenta.
- Esqueça, meu periquito, disse Dona Ursa Menor, bocejando.
Mas o periquito não desistia. Assim, Dona Ursa Menor, ainda bocejando, disse que procurasse o Cruzeiro do Sul, uma casinha com várias estrelas, senhoras sábias do universo.
...e o periquito voou até o Cruzeiro do Sul, numa viagem muito longa. E foi a sua estrela do norte, a mais distante de todas. Depois de contar o que queria, ela respondeu:
- O brilho da Lua não precisa ser visto de perto.
E não ensinou o caminho. Nem as estrelas do Este e Oeste, também quiseram dar, pelo menos, uma pista.
Foi quando a estrela Sul, vendo que o periquito não iria desistir, resolveu ensinar-lhe o caminho.
O periquito voou feliz, seguindo o caminho indicado pela estrela. E finalmente chegou a uma Terra estranha, escura, deserta, onde nada brilhava. Só ele. Achou que estava errado, pensou que estivesse em Mercúrio ou Plutão, nunca na Lua. Correu para uma Areiazinha e perguntou:
- Areiazinha, você é da Lua?
Ela respondeu que sim, era da Lua. E uma pedrinha, também muito branca disse:
- Eu também sou uma pedra da Lua!
O periquito não se conformou. Ele não sabia onde estava o brilho da Lua. “A Lua não brilha?”, perguntou a si próprio. “Claro que brilha, claro”. Mas a pedra e a areiazinha eram opacas. Não eram brilhantes.
Assim chegou a noite, com o periquito, muito solitário e triste, andando cabisbaixo. O silêncio era imenso, não havia nenhum ruído. Foi quando encontrou uma árvore, também solitária, e que tinha nos galhos um pássaro cujo canto se parecia com o vento.
E o periquito enxergou a si próprio, vendo sua imagem na Terra, cantando em suas janelinhas.
A árvore, silenciosa, disse:
- Não se entristeça, periquitinho. Você apenas viu que o brilho da Lua não precisa ser tocado ou visto de perto. Ele somente existe.
A árvore tossiu. Depois, continuou:
- A realidade é sonho. E tu és um mensageiro do sonho. É teu canto mais tua cor que transporta as pessoas até a Lua, pela emoção.
E o periquito percebeu que ele mesmo brilhava muito, mesmo não estando na Lua. Bastava cantar apenas. Assim, resolveu voltar pra Terra, pensando em cantar novamente nas janelinhas.
E assim voou de volta, deixando um rastro brilhante, cor de Lua.
Diana Pequeno

terça-feira, 10 de julho de 2007

O HOMEM E A MÚSICA: CRIADOR E CRIATURA


O homem criou a música, a cria cresceu e imortalizou o criador.
Alberdan Batista*

Foram os gregos que criaram a palavra música para significar “a arte das musas”.
Posteriormente esta palavra ganhou outros usos e significados, conforme o tempo e o espaço, conforme as influências históricas e geográficas.
Hoje a música constitui parte muito importante da cultura da maioria dos povos da terra, traduzindo a convivência do ser humano com o seu meio e seus sentimentos em relação a si e a tudo que o cerca. É dessa relação simbiótica que surgiram as características peculiares da música de cada lugar.
É certo também que bem antes da existência do Homem sobre a terra, já existiam os sons na natureza, mas isto ainda não era música. Música é arte e arte é criação humana, é manifestação dos seus sentidos.
Para os chineses, por exemplo, a música nascia da natureza, era retirada “do sopro do vento, do murmúrio, do oceano e do canto dos pássaros”. Baseados neste princípio acreditavam que a música tinha como principal objetivo “orientar o povo na prática do bem e na purificação do pensamento”.
Foi um longo caminho percorrido que partiu da linguagem mística do homem primitivo, na busca de comunicar-se com os mortos e as divindades, até que os sons transformaram-se em música.
Durante séculos foi utilizada apenas como oração. Precisou misturar-se ao popular e o profano para transformar-se em arte e divertimento, até chegar a ponto de ser o resultado de reflexão, de vivências, de experiências, de crenças, dúvidas e certezas. A música é encontrada nos mais variados lugares, das mais variadas formas, cumprindo as mais variadas funções. Continua sendo tudo que foi e sendo mais a cada novo dia.
É parte de nossas vidas do nascimento a morte, expressando emoções, sentimentos de quietude e agitação. Dela nos utilizamos para pedir paz, para pedir chuva sobre a terra, para aliviar o cansaço, para recuperar a saúde. Cantamos para rezar, cantamos para alegrar, cantamos para consolar, cantamos para protestar, cantamos para nos distrair, sem nem prestar a tenção. Cantamos para viver e para sobreviver, quando fazemos da música o nosso ganha pão, quando fazemos do cantar a nossa profissão.
Creio então que dá para concluir: o que seria de nós sem a música.

*Bacharel em Gestão e Produção de Eventos Culturais pela UNAMA